Sabemos que o Carisma Maíra, assim como todos os carismas da Igreja, é inspirado pelo Espírito Santo em um momento histórico-social-religioso propício conforme a Vontade de Deus. Assim, o nosso carisma é uma resposta de Deus ao mundo que clama seu nome, suplicando seu auxílio.
O Carisma Maíra, em especial, é um carisma fundamentado na palavra. Podemos citar, por exemplo a passagem basilar de nossa fundação encontrado em Is 11,1-2. Neste texto, o profeta fala de um ramo que nascerá do tronco de Jessé, de suas raízes. Este ramo será ungido de Deus. Nele serão derramados os dons do Espírito: sabedoria, inteligência, conselho, temor de Deus, fortaleza, ciência e piedade.
Em nossa história, foi nesta passagem que iniciou a obra divina “Comunidade Maíra”. Nós somos este broto que, estando sua raiz quase morta, ressuscitou em um espírito novo. Ressurgimos em Cristo no Espírito para Deus. Somos chamados a sermos profetas ungidos e banhados pelos dons divinos.
Em Eclo 30, encontramos mais de nosso carisma. Nesta passagem apresenta a importância da educação dos filhos. Educação essa que provém da educação divina. Assim como o pai que amando seu filho, as vezes é necessário ser duro para educa-lo, o Senhor Deus também precisa “puxar nossas rédeas” para que não saiamos de seu caminho. Desta forma, precisamos ser dóceis as exortações de nossos superiores pois eles falam não por si, mas por Aquele que nos chamou.
Em Maria encontramos todos esses aspectos. É nela em que entregamos nossas vidas, para que possam ser entregues ao seu Filho. Não é por acaso que temos como nome “Maíra”, “Maria”. É pelo rosto dessa Mulher que contemplamos a beleza do nosso carisma. É em seu exemplo que encontramos o fim ultimo de nossa missão: Jesus Cristo.
Porém, é possível encontrar alguma imagem que reflita o nosso carisma de forma mais completa?
Eu me arrisco dizer que é possível. Mais uma vez Deus vem ao nosso encontro através de sua Palavra. Encontramos esta imagem no Evangelho de São João 19, 25-27: “Perto da cruz de Jesus, permaneciam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria de Clopas, e Maria Madalena. Jesus, então, vendo a mãe e, perto dela, o discípulo a quem amava, disse à mãe: ‘Mulher, eis teu filho!’. Depois disse ao discípulo: ‘Eis tua mãe’. E a partir dessa hora, o discípulo a recebeu em sua casa”.
Aqui, João apresenta uma das mais belas imagens do Novo Testamento. Aqui podemos encontrar a essência de nosso carisma. Nosso carisma é “Acolher como Maria, no amor e na alegria os filhos de Deus, educando e formando para o serviço da Igreja”. Qual seria a relação com este episódio de João? Procuro, por tanto, apresenta esta relação de forma em três aspectos.
“Acolher como Maria”: Jesus, sofrendo as dores de sua morte, olha para Maria com seu olhar não só de filho, mas também de Deus, entregando-a para o discípulo amado, e olhando para ele, por sua vez, o entrega para a sua mãe. Maria acolhe este discípulo muito caro para Jesus. Acolhe, não como uma visita, mas como um filho. Não um filho adotivo que acabara de conhecer, mas um filho que já conhecia a muito tempo. Um filho que seu Filho o amava e que agora ele confia a sua proteção.
O “acolher como Maria” nos leva a estar sempre de braços abertos a todos que o Cristo ama e nos entrega em seu amor. Não é apenas abrir os braços, mas abrir o coração, a intimidade, sem olhar os defeitos, as mazelas, os pecados. O nosso acolher é como aquele pai ansioso a volta de seu filho que num ato de impulso fora viver longe de casa, mergulhado no pecado. É abraçar e encher de beijos, com osculo da paz, aquele que chega até nós todo ferido e fedido pelo fedor do pecado.
“No amor e na alegria os filhos de Deus”: Maria, aos pés da cruz, vendo seu filho morrer sem culpa nenhuma, nesta dor maternal, acolhe o discípulo amado, não na tristeza, mas na alegria da cruz. Uma alegria que é “loucura” e “escândalo” para muitos, mas para nós, cristãos, é a expressão real amor de Deus. Não há maior prova de amor do que a cruz. É neste lugar que Cristo se doa para nos salvar. Uma entrega de amor. Amor ágape.
É nesta dinâmica que se encontra Maria. Ela, mesmo sofrendo, entendeu esta relação amor de Jesus para com a humanidade. E nunca se opondo à vontade divina, também mergulha nesta água. Maria nos apresenta, nesta sua atitude, que a nossa alegria deve ser fundamenta no amor da cruz. Uma alegria que, mesmo no maior sofrimento humano, se manifesta de tal forma que contagia o outro. Pois está pautada pelo amor de Cristo.
“Educando e formando para o serviço da Igreja”: Maria acolhe e toma para si e para sua família o discípulo amado. É interessante observar que este discípulo não é chamado pelo nome, para apenas de “discípulo amado”. A tradição da Igreja nos ensina que João apresenta este personagem sem nome próprio para significar a Igreja. Maria ao acolher este homem, acolhe a comunidade cristã. Traz para seu íntimo toda a Igreja e cuida-a com amor e carinho.De fato, em Pentecostes, encontramos Maria entre os discípulos de Cristo. Ela estando na Igreja se torna via expressa que nos leva a Cristo. Na presença dela o seu Esposo derrama seus dons na Igreja iniciando, assim sua missão.
A exemplo de Maria, somos chamados a acolher, educar e formar cada filho amado de Deus para a missão da Igreja. Aliás, esta é nossa maior missão. Cada dimensão do carisma (acolher, educar e formar) deve ser conduzido pelo Espírito Santo. Ele, assim como Maria, se apresenta onde nós estivermos para derramar sobre aqueles que estão em nosso meio os seus dons.
Precisamos, a cada dia fixar nossos olhos e nossos corações nesta imagem do calvário, pois ela é a expressão de nosso carisma. Nela encontramos todo o percurso que precisamos trilhar para uma boa vivencia de nossa identidade cristã. Maria se apresenta para o mundo através de vários títulos. Para nós, “mairanos”, ela se manifesta no calvário com seu Filho Jesus.
Que Maria possa ser sempre a nossa imagem, nossa via expressa par vivermos com maior intensidade e segurança o nosso carisma Maíra. Que ela nos ajude a cumprir com alegria a missão deixada a nós pelo seu Filho.